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Tinha lá uns sete, oito anos de idade. O jogo era contra o Bangu em São Januário, o Vasco venceu por 4 x 1 e me chamou a atenção o Dimas.

Era o meu debut em jogos do Vasco no estádio.

Meu tio, Manuel Teixeira Frias, era daqueles que vivia no Vasco, buscava ajudar no que fosse possível, chegou a chefiar a delegação vascaína em uma partida do Expresso da Vitória no ano de 1949 contra o Mogi-Mirim, no centenário da cidade paulista, e me levava vez por outra para ver os jogos do Vasco em vários campos do Rio de Janeiro. Tivera dois filhos, mas nenhum deles, incrivelmente, torcia pelo Vasco. Um era Flamengo e outro Fluminense. Nunca entendi aquilo. Com isso, o grande companheiro dele nos jogos era eu mesmo.

Meu pai, David, trabalhava muito e ligava bem menos que o irmão. Era Vasco, mas sem tanto entusiasmo. Meu tio, não, vibrava. Uma vez largou a minha tia no hospital, após breve melhora no quadro clínico para ir ver o Vasco jogar. Aquilo causou uma indignação na família forte, mas eu não me metia. Filho único, ficava na expectativa de que meu tio me levasse num outro jogo do Vasco em breve.

A final de 1950, no Maracanã, contra o América eu vi nas cadeiras especiais, um luxo que era raríssimo para quem viu Brasil x México de geral e Brasil x Espanha na Copa do Mundo com grande dificuldade de enxergar algo, diante de um Maracanã abarrotado de gente. O jogo, meu filho falou outro dia, não foi em 1950 e sim em 1951, no mês de janeiro. Não me lembrava disso, mas me recordo de um português, tradicionalíssimo, torcendo para o … América! Fiquei chocado. Todos os portugueses que conhecia, inclusive os da minha família, eram Vasco. E o Vasco ganhou com dois gols do Ademir, o segundo recebendo um passe de Ipojucan.

Mas os tempos próximos ao Vasco estavam por acabar. Desde os seis anos de idade eu, na condição de coroinha da Igreja do Sacramento, pagava a mensalidade do meu colégio, São Bento, ajudando em missas daquela igreja e de outras do centro da cidade (chegava a trabalhar em cinco missas num dia e também nos fins de semana), mas quando o curso primário acabou precisei tomar uma decisão que me permitisse concentrar mais nos estudos.

Em março de 1951, com 11 anos de idade, fui parar no seminário São José, ali no Rio Comprido, que era pago não por mim nem por minha família, mas sim pelas Obras Sacerdotais. Não sabia se queria ser padre, mas tinha certeza de que não queria ver meus pais apenas duas horas por mês no local onde estudava, como ocorreu por anos, com a benesse dada de estar também com eles entre os dias 26 e 31 de dezembro, antes da virada do Ano Novo, ou ainda numa comemoração em família como um casamento, bodas de prata ou bodas de ouro, quando por um dia inteiro poderia estar em casa, da manhã até a noite. Tornei-me um adolescente distante de meu clube, um adulto mais longe ainda, após sair do seminário e ter de ganhar a vida, tendo perdido meu pai pouco mais de cinco anos depois e com a obrigação de sustentar a minha mãe.

Casei-me e tive meu primeiro filho no ano em que o Vasco saiu da fila e voltou a ganhar um Campeonato Carioca. Parecia um sinal. Mas minha relação com o clube ainda era fria. Queria meu filho vascaíno, já minha esposa, flamenguista, pretendia o contrário, mas nunca teve chance, a começar por ele mesmo.

Quando o Vasco foi Campeão Brasileiro em 1974, um ano após o nascimento da Claudia, minha filha, dei uma bandeirinha do Vasco ao Sérgio. Já bebê ele recebera uma flâmula do clube, campeão de 1970. De uma hora para outra, entre 1976, 1977 o garoto se apaixonou de forma avassaladora por futebol e queria ir ver um jogo do Vasco.
Estive para levá-lo num Vasco x Botafogo, num dia em que a família toda, primos, tios foram ao Maracanã, mas ele ficou. Quando chegamos todos e ele soube do resultado (1 x 1), queria saber do primo Marco Aurélio detalhes do jogo, como fora o gol de Dé, parecia que não pararia nunca de falar ou perguntar.

Na semana seguinte o Vasco não jogaria no Maracanã. Era Fla-Flu. Como tínhamos duas cadeiras perpétuas no estádio – compradas por mim no ano do nascimento dele – deixei que o Juvenil, funcionário meu na época, esse que ele cumprimenta no programa das segundas-feiras, o levasse para o estádio.

Fiquei com um certo receio dessa ida dele ao jogo, afinal não era do Vasco. Ele chegou falando da cor das camisas dos goleiros (coloridas num mundo normalmente preto e branco para ele quando aparecia um jogo na TV), mas fui informado que se animara mesmo com cachorro quente, pipoca e matte leão em copo de papelão (só saía espuma naquilo!).

O Vasco entrou num período difícil e foi parar na repescagem do campeonato brasileiro da época, bem diferente desse de hoje, quando partidas contra Goiânias e Mixtos não eram sinal de fácil vitória. Estava em busca de um jogo sem risco, mas todos, naquela fase vivida pelo time, eram arriscados. Como aquele Fla-Flu de meses antes havia terminado empatado queria que a primeira vitória no estádio que ele visse fosse do Vasco.

Na casa de minha mãe, ouvindo o radinho de pilha disse a ele que se o Vasco passasse pelo Mixto em São Januário (jogo que classificaria o time para a fase seguinte, segundo ele me informou em consulta recente), eu o levaria ao Maracanã para ver o Vasco. Dito e feito. Na semana seguinte, um sábado à tarde (também segundo ele), estávamos lá. O adversário era o CRB, de Alagoas (disso eu me lembro) e o Vasco venceu por 1 x 0 com muita pipoca, matte no copinho de papelão e cachorro quente comprados antes do início do jogo, intervalo, saída.

Saímos felizes do estádio e ele animado com o Roberto, que fizera o gol único do jogo. Mas na chegada ao setor das cadeiras o fiz passar por uma prova de fogo. Dessas coisas que não tem explicação.

Ao descer para comprar o primeiro cachorro quente ou matte, encontramos com o Ademir Menezes, artilheiro do Expresso, que fazia comentários em uma rádio da época e estava próximo ao setor da imprensa. Falei: “Ademir! “, virei para o Sérgio e disse: “Esse aqui, meu filho, é o Ademir”, enquanto o Ademir abria um leve sorriso.
Meu filho me olhou meio espantado e aí eu voltei com mais ênfase, porém também com certo cuidado: “O Ademir, meu filho. Aquele do time que o papai fala com você”. Como é mesmo? “Barbosa, Augusto, Wilson…”. E o Sérgio emendou: “Barbosa, Augusto Wilson (parecia um nome só, Augusto Wilson), Eli, Danilo e Jorge, Friaça (não saiu assim mas algo parecido), Maneca, Ipojucan, Ademir e Chico”. O Ademir olhou, deu um novo sorriso e os olhos marejaram um pouco. Disse depois a ele apenas: “Tchau Ademir. Um abraço”. E fui comprar o cachorro quente com o Sérgio, realizado. Com uma sensação de dever cumprido.

Em 1977 foram vários jogos com ele, vimos o Vasco ganhar a Taça Guanabara com uma vitória sobre o Botafogo e comecei a resolver de forma simples um problema que ocorria a cada jogo ocorrido à noite. Ele acordava ansioso para me perguntar se o Vasco havia ganho e sentia tensão até que soubesse do resultado. Adotei então uma tática eficaz. Punha abaixo do quadro que ficava em cima da caminha dele o resultado do jogo e quem havia feito os gols. Junto a isso uma mensagem, sempre de otimismo, fosse qual fosse o resultado. Ele já me encontrava no café da manhã perguntando tudo sobre o jogo e queria porque queria que o levasse a São Januário.

Aí tomei uma das atitudes mais acertadas da minha vida. Comprei um título de sócio patrimonial do Vasco. Na época o Jorge Salgado, irmão do Pedro, companheiro de mercado de capitais, me sugeriu comprar também um camarote no estádio, que dava lugar a quatro pessoas. Não tive dúvidas. E já pus o restante da família como dependentes meus.
O primeiro jogo que vimos foi um Vasco e Remo (segundo ele me diz, porque disso não me lembrava mesmo). Outra vitória do Vasco por 1 x 0, gol de Paulinho (mérito para a memória dele). Passara um ano inteirinho e ele não havia visto o Vasco perder no estádio uma única vez.

A primeira decepção ocorreu depois do carnaval, em 1978. Com um público que eu jamais vi igual em São Januário perdemos para o Londrina, uma espécie de zebra da época, e fomos eliminados do Campeonato Brasileiro do ano anterior (é, do ano anterior). Ele é imenso hoje, mas na época deu pena vê-lo querendo assistir o jogo, com tanta gente na frente. Viu pouco, mas também não perdeu nada.

No mesmo ano, 1977, conheci, num desses jogos, o Sr. Rui Proença, que se sentava no Maracanã duas fileiras à nossa frente e era talvez o vascaíno mais entusiasmado do setor. Ao seu lado o saudoso Ferreira, que também não faltava a um jogo. A amizade foi sendo feita ao longo dos anos, havia uma coincidência de uma loja da Casa Cruz ter existido em frente ao local onde meu pai trabalhava e pela nossa diferença de idade havia uma possibilidade de os dois terem se encontrado por diversas vezes naquela região, perto do Parque Royale, que pegou fogo uma vez e deixou meu pai sem emprego (na época da guerra, se não me engano), para desespero da minha mãe e o consolo dele próprio a ela dizendo que não se abatesse porque havia sido feita a vontade de Deus. Mas isso é outra história. História de velho.

O Sérgio ria muito com as comemorações do Sr. Rui, que fazia coisas que lhe proporcionariam uma bronca se repetisse, como subir na cadeira após um gol, sair subindo e descendo a escada ao lado das cadeiras, abrir o guarda-chuva e rodá-lo (em dias de chuva, claro), entre outras que ele relembra até hoje.

Como sempre votei no Eurico e o Sr. Rui sabia disso, ele passou a me convidar para frequentar algumas reuniões organizadas pelo clube ou por grupos nos quais estava Eurico. O Sérgio se lembra de irmos juntos a várias a partir de 1988, ano no qual fomos bicampeões e ficamos na lateral do gramado esperando o jogo acabar, após o gol do Cocada.

Acostumado a ir aos jogos o Sérgio também se encantava com tais reuniões, afinal eram todos vascaínos e só se falava de Vasco. As pessoas mais velhas contavam passagens marcantes do clube, como o 7 x 0 de 1931, o Expresso da Vitória, a construção de São Januário, e numa daquelas vezes vi o Chico, melhor ponta-esquerda da história do Vasco, sentado numa das mesas. Não tive dúvida. Levei o Sérgio para lá e fui puxando uns assuntos de uns jogos dele do passado. Eu me recordo até hoje de um jogo contra o Corínthians, em que ele fez um gol faltando um minuto, que deu ao Vasco uma importante vitória na época (dia de bodas de prata do meu Tio Manuel com a minha tia Aurora, ocasião na qual demos uma escapulida e fomos juntos ao Maracanã).

Os olhos do Chico brilhavam com meu filho falando o que já tinha lido sobre aquele time (mérito meu de incentivá-lo também, é claro), do Campeonato Sul-Americano de 1948, da Copa de 1950, dos títulos invictos. À certa altura os dois não paravam mais de falar. Lembro até que o Eurico passou por perto e disse apontando para o Chico: ”Esse tem muita história pra contar”. E tinha mesmo. O Sérgio contava detalhes de jogos na conversa com o Chico naquele dia, que eu vi no estádio e nem me lembrava mais.

No dia da eleição de 1991, tive uma surpresa. Meu nome estava na chapa do Conselho Deliberativo. O Sr. Rui Proença havia me indicado e mais uma vez quem mais vibrou foi o Sérgio.

No primeiro mandato dei a sorte de ser Tricampeão Carioca como conselheiro do clube e assim fui seguindo nos outros anos, mas minha maior alegria foi quando surgiu o nome do Sérgio na chapa do Eurico (presidente) em 2000. Ele ficou entusiasmadíssimo. Já havia trabalhado na eleição de 1997, digladiando verbalmente com a turma do MUV durante todo o período pré-eleitoral, que naquele triênio, começou muito antes de 1997 e no dia da eleição fez questão de chegar no clube às oito e meia da manhã para ajudar, segundo disse (na época não morava conosco).

Ele ficou do lado de um senhor que depois descobriu ser o Álvaro, irmão do Eurico, fazendo boca de urna, e criou seu bordão contra a fala da oposição da época que argumentava ser a permanência de Calçada e Eurico um continuísmo inaceitável no Vasco. “Eurico e Calçada, Calçada e Eurico: continuísmo de vitórias”. Com a chapa azul na mão repetia aos que passavam até cansar, ou quem sabe cansá-los. Deve ter mudado o dia inteiro uma meia dúzia de votos, se muito, mas saiu todo feliz, após a apuração e a confirmação da vitória da chapa azul. Meses antes, comigo internado na Beneficência Portuguesa, após uma intervenção cirúrgica que sofri, falava como um suposto douto sobre o perigo que o Vasco corria caso a chapa azul perdesse. Caso Eurico saísse do Vasco.

Um ano antes Eurico me proporcionou uma grande alegria pessoal: o reconhecimento do título sul-americano de 1948. Sempre votei na chapa em que ele estava, desde 1980, vi brigar muito pelo Vasco, ajudar na conquista de títulos, mas jamais imaginaria que conseguiria aquilo. Ao lado do Sérgio, lendo a notícia do reconhecimento me emocionei e ele também. Como diz meu filho: “Se ele não tivesse feito absolutamente nada pelo Vasco, aquilo ali já seria muito”.

Em 2002 fui agraciado com um título de Benemérito. Havia sofrido uma fratura na rótula do joelho, a cirurgia não deu certo e permaneci de molho. No dia da entrega do diploma meu filho me representou. Fiquei extremamente feliz com isso, imaginando a cena.

Vimos muitos títulos, tivemos alegrias, tristezas, mas nada se compara em termos de decepção no clube, fora das quatro linhas, a aquele absurdo que foi a reunião do Conselho Deliberativo, na qual se pôs o despreparado Roberto Dinamite como presidente (imaginem!), presidente do Vasco.

Não pude votar porque ainda não era conselheiro nato, o Sérgio votou no nosso saudoso Amadeu, mas aquilo mais parecia um circo já armado. Vi a desolação do meu filho com a derrota e fiquei pacientemente ouvindo seus vaticínios, infelizmente confirmados com o tempo. De fato, era constrangedor imaginar um clube como o Vasco sendo conduzido por Roberto Dinamite, que foi um grande artilheiro, diga-se de passagem.

Mas dali por diante o Sérgio entrou para o grupo Casaca!, dileto grupo, e quando soube ele já escrevia texto, falava na Rádio Bandeirantes e parecia circunspecto e objetivo na missão de pôr o Eurico de volta no clube. Falava da sujeira que fora feita com ele, com razão, e tinha certeza de que ele voltaria, cedo ou tarde.

Fico com a sensação de que Eurico voltou tarde. Foi muito tempo de Dinamite no Vasco, de MUV, como o Sérgio diz, de muita tristeza com o clube abandonado e ainda uma reeleição do próprio Roberto Dinamite.

Mas, finalmente, em 2014 fomos todos votar no Eurico. O Sérgio botou como sócios a esposa, a tia, prima, irmã (a minha filha Claudia), a mãe (minha mulher) flamenguista, o nosso porteiro, alguns amigos, empolgado com o ressurgimento do nosso bom Eurico no Vasco novamente.

Passaram-se dois anos, o Sérgio permanece irrequieto e com o assunto Vasco permeando nossas conversas, meu neto nasceu e fiz questão de com meu filho irmos ao Maracanã (eu após 13 anos ausente) para vermos a decisão contra o Botafogo este ano. Acabou o jogo, abracei meu filho e gritei: “Meu neto é Bicampeão. Bicampeão invicto”. Eu que vi com 8 e 10 anos o Vasco ser campeão invicto, que fui com o meu filho no estádio de São Januário no dia do título invicto de 1992 contra o Flamengo, desta vez senti algo diferente. Era o primeiro título do meu neto, que meu filho pôs como sócio proprietário do Vasco no mesmo dia ou no dia seguinte que nasceu.

Quase no fim de 2016 me chegam duas notícias de uma só vez: a de que seria agraciado com o título de Grande Benemérito do Vasco era uma e agradeço pela lembrança e pelo carinho para comigo. Mas a Grande notícia mesmo foi a indicação de meu filho para Benemérito do Vasco. Ele que me fez voltar a frequentar estádios, a lembrar de minha infância neles, enquanto o levava aos jogos, que no café da manhã queria detalhes dos mais diversos do jogo disputado pelo Vasco na noite anterior, que viveu comigo tantos momentos felizes, que acreditou no que poucos acreditavam, que escreveu um livro falando de Vasco e de quem considera seu maior emblema vivo (no que concordo), que ouviu, acreditou e pesquisou sobre as histórias que eu lhe contava, para recontá-las a mim com mais detalhes ainda, e que, tenho certeza, pode ajudar mais e muito mais o Vasco.

No livro que escreveu (já está em tempo de acabar com tanta pesquisa e lançar o próximo), uma grande homenagem fez a mim e resume, realmente, o seu sentimento em relação ao clube. Diz mais ou menos assim: “Meu pai não me fez apenas ser Vasco, mas sim me fez ter orgulho de ser Vasco”.

Orgulho é o que sinto. Por meu filho.

Saudações Vascaínas a todos!

Casaca!

Raymundo Frias

OBS: Muitas das histórias meu filho as reavivou para mim. Se quiserem mais detalhes, aí é com ele mesmo.

* Coluna publicada originalmente no dia 31 de dezembro de 2016.

 

Com muita tristeza, vejo meu nome envolvido em suspeita de indicação irregular para o quadro de beneméritos do Club de Regatas Vasco da Gama.

Inicialmente, deixo claro que não pedi para ser indicado, tampouco votado pelos componentes do Conselho Deliberativo do clube.

Todavia, aceito, com muita honra, o título. Trata-se de uma das maiores alegrias que tive na vida, depois do nascimento da minha filha.

Agora, vamos lá.

Aos que não me conhecem, sou advogado, formado desde 1993.

Há muitos, muitos anos fui convidado pelo grande vascaíno e, na época, Vice-Presidente jurídico do Vasco da Gama, Paulo Reis, a colaborar com o clube, fazendo parte do seu quadro jurídico. Aceitei com muito orgulho. Aceitei por amor ao clube que está dentro do meu coração e de toda a minha família. Desde o meu avô, imigrante português, até as novas gerações, inclusive, dois sobrinhos meus, que são americanos e vascaínos. Minha filha de 4 anos puxa o casaca e canta o hino, todos os dias, por exemplo. Minha esposa é natural do Ceará e é Vasco.

Mas não foi pelo vascainismo de toda a minha família que fui indicado a benemérito.

Fui indicado pelo fato de que advogo para o Club de Regatas Vasco da Gama há muitos anos, gratuitamente. Jamais recebi um centavo. Aliás, pago para advogar para o Vasco, porquanto tenho gastos com custas, xerox, transporte etc. dos quais jamais solicitei reembolso.

Abra-se um parêntese: evidentemente, quando Roberto Dinamite assumiu a presidência, os novos diretores não solicitaram meus préstimos, constituindo corpo jurídico próprio. Não discuto isso. Discuto, sim, o fato de que, conforme fartamente noticiado pela imprensa, novos diretores jurídicos estavam sendo remunerados, com valores que remontavam elevadas cifras (falava-se, pasme-se, em R$ 50.000,00 mensais).

Muitos membros da oposição, que hoje questionam meu nome, apoiaram essa gestão Presidida por Roberto Dinamite, e não me recordo de nenhum deles colocar sob suspeita advogados abundantemente remunerados com o dinheiro do clube.
Questionam o meu, que trabalha como advogado para o Vasco da Gama sem absolutamente nada receber, unicamente por amor à instituição.

Questionam meu tempo como sócio, que não é pequeno, afirmando que não preencho requisito para ser benemérito. Preencho, sim, pois o tempo não é o único requisito. O merecimento também é, por relevantes serviços prestados à instituição.

Porém, alguns preferem a covardia. Preferem a proteção das redes sociais. Preferem a senda da difamação.

A intenção não é fazer um Vasco maior. A intenção é apenas tumultuar.

Talvez, se assumirem a direção, irão voltar à velha pratica de remunerar diretores jurídicos com grandes salários.
Quisera eu tivesse o Vasco da Gama vários outros profissionais com a disposição que tenho de colaborar, que disponibilizassem seus escritórios para a prestação de serviços gratuitos ao Vasco da Gama, simplesmente, por amor ao clube.

Como disse, não pedi para ser indicado, não pedi para votarem em mim, mas aceito, como muito orgulho e honra, o título de benemérito.

Alexandre Lopes de Oliveira

Nas últimas horas, com incentivo de grande parte da mídia, torcedores entraram num debate se o Vasco x Flamengo, semifinal da Taça Rio, valia ou não.

Debate fora de questão se tivermos um mínimo de conhecimento:

1 – Erro do regulamente à parte (os campeões de turno deveriam ter vantagem nas semifinais do estadual), Vasco e Flamengo decidiam uma vaga para disputar a final da Taça Rio, que dá um prêmio de 1 milhão de reais (150 mil pela semi e mais 850 mil pelo título)

2 – Um Vasco e Flamengo envolve torcedores de todo o País. A Globo optou pelo Pay Per View porque quer mais vendas do pacote futebol, importante receita para os clubes (só o Vasco receberá este ano pouco mais de 35 milhões de reais de PPV).

3 – O vencedor (no caso o Vasco com o empate) garante vaga na final no próximo domingo, que terá transmissão da TV Globo para o Rio e mais 14 ou 15 estados. Isso significa retorno ao patrocinador do clube na medição que é feita pelo Ibope-Repucom. Quanto mais retorno o clube dá mais pode cobrar no ano seguinte. O Vasco está entre os 5 de maior visibilidade. Os jogos na TV aberta também são importantes.

4 – Os jogos do campeonato carioca em TV aberta são vistos em mais estados brasileiros, o que garante visibilidade aos clubes do Rio.

5 – Vasco e Flamengo têm uma rivalidade centenária, que vem do remo, passa pelo crescimento do Vasco na década de 20 e muito mais. Essa rivalidade se espalha pelo Nordeste, Norte, Distrito Federal, Espírito Santo e Santa Catarina, principalmente.

6 – Tirando os meninos brancos de classe média que comentam atualmente na televisão, o povão quer muito brincar com o adversário no bar, na padaria, no trabalho. É a essência do futebol. Isso vale para os dois lados.

7 – Um time tem uma folha salarial no futebol de 4 milhões/mês. O outro de 12 milhões/mês. E o que gasta menos só perdeu 1 jogo dos últimos 12 eliminando o rival em 4 competições desde 2015. Essa é a magia do futebol. Há fases assim, o que não significa que durem para sempre.

8 – Por último, contra o Vasco (e Eurico em particular) prevalece o jornalismo de guerra. O clube recupera patrimônio, paga dívidas, está em dia com impostos e salários, mas tudo é retratado como ruim. Não pode investir hoje no futebol o que gostaria, mas vai aumentar um pouco a cada ano.

Em resumo Vasco e Flamengo sempre vale. O resto é bola de gude no carpete.

Marco Antônio de Amorim Monteiro
Grande Benemérito
Vice-Presidente de Marketing do Club de Regatas Vasco da Gama

 

 

    Vascaínos, 

 Muitas coisas mudaram, quer queiram, quer não, na condução administrativa do Vasco desde que Eurico voltou a ocupar a cadeira de presidente  do nosso clube.

Acertou os impostos, colocou os salários em dia, melhorou nítida e claramente as condições de todo o departamento de futebol, desde as categorias de base até os profissionais, criou o Caprees, fez um campo de treino anexo, recuperou as instalações da Pousada do Almirante saqueada na administração anterior, melhorou em muito o Colégio Vasco da Gama, voltou a fornecer refeições dignas aos atletas e funcionários (sem essa de salsicha com arroz), recuperou  o ginásio, voltou a ter um excelente time de basquete, e, agora, parte para a recuperação do parque aquático que é, sem dúvida, um dos orgulhos de qualquer Vascaíno.

Dentre tantos e elogiáveis feitos, pode parecer que não, aos meus olhos Eurico tomou outra grande iniciativa. Mandou retirar do uniforme de jogo aquele horroroso e sem nenhum nexo debrum branco que contornava a nossa tradicional Cruz de Malta. Parabéns, atitude nota 1.000.

 Agora, na minha modesta opinião, só falta para completar esse serviço dos uniformes mandar que se use o velho e tradicional meião listrado em preto e branco, símbolo das mais importantes conquistas do nosso Vasco que nos remete aos anos de 1940/50/60/70,…….. A Umbro haverá de compreender.

 Voltar a ver os times do meu querido Vasco usando os meiões listrados seria, pelo menos para mim, o retorno a gloriosos tempos do nosso clube. 

Fica sugerida a modesta ideia. Quem gostar que a apoie. Quem não gostar,que continue a apoiar sempre essa administração, que é, sem dúvida, a administração da recuperação financeira,política e institucional do meu,do seu,do nosso C.R. Vasco da Gama.

     Saudações Vascaínas.

     Paulo Pereira / Grande Benemérito 

Tinha lá uns sete, oito anos de idade. O jogo era contra o Bangu em São Januário, o Vasco venceu por 4 x 1 e me chamou a atenção o Dimas.

Era o meu debut em jogos do Vasco no estádio.

Meu tio, Manuel Teixeira Frias, era daqueles que vivia no Vasco, buscava ajudar no que fosse possível, chegou a chefiar a delegação vascaína em uma partida do Expresso da Vitória no ano de 1949 contra o Mogi-Mirim, no centenário da cidade paulista, e me levava vez por outra para ver os jogos do Vasco em vários campos do Rio de Janeiro. Tivera dois filhos, mas nenhum deles, incrivelmente, torcia pelo Vasco. Um era Flamengo e outro Fluminense. Nunca entendi aquilo. Com isso, o grande companheiro dele nos jogos era eu mesmo.

Meu pai, David, trabalhava muito e ligava bem menos que o irmão. Era Vasco, mas sem tanto entusiasmo. Meu tio, não, vibrava. Uma vez largou a minha tia no hospital, após breve melhora no quadro clínico para ir ver o Vasco jogar. Aquilo causou uma indignação na família forte, mas eu não me metia. Filho único, ficava na expectativa de que meu tio me levasse num outro jogo do Vasco em breve.

A final de 1950, no Maracanã, contra o América eu vi nas cadeiras especiais, um luxo que era raríssimo para quem viu Brasil x México de geral e Brasil x Espanha na Copa do Mundo com grande dificuldade de enxergar algo, diante de um Maracanã abarrotado de gente. O jogo, meu filho falou outro dia, não foi em 1950 e sim em 1951, no mês de janeiro. Não me lembrava disso, mas me recordo de um português, tradicionalíssimo, torcendo para o … América! Fiquei chocado. Todos os portugueses que conhecia, inclusive os da minha família, eram Vasco. E o Vasco ganhou com dois gols do Ademir, o segundo recebendo um passe de Ipojucan.

Mas os tempos próximos ao Vasco estavam por acabar. Desde os seis anos de idade eu, na condição de coroinha da Igreja do Sacramento, pagava a mensalidade do meu colégio, São Bento, ajudando em missas daquela igreja e de outras do centro da cidade (chegava a trabalhar em cinco missas num dia e também nos fins de semana), mas quando o curso primário acabou precisei tomar uma decisão que me permitisse concentrar mais nos estudos.

Em março de 1951, com 11 anos de idade, fui parar no seminário São José, ali no Rio Comprido, que era pago não por mim nem por minha família, mas sim pelas Obras Sacerdotais. Não sabia se queria ser padre, mas tinha certeza de que não queria ver meus pais apenas duas horas por mês no local onde estudava, como ocorreu por anos, com a benesse dada de estar também com eles entre os dias 26 e 31 de dezembro, antes da virada do Ano Novo, ou ainda numa comemoração em família como um casamento, bodas de prata ou bodas de ouro, quando por um dia inteiro poderia estar em casa, da manhã até a noite. Tornei-me um adolescente distante de meu clube, um adulto mais longe ainda, após sair do seminário e ter de ganhar a vida, tendo perdido meu pai pouco mais de cinco anos depois e com a obrigação de sustentar a minha mãe.

Casei-me e tive meu primeiro filho no ano em que o Vasco saiu da fila e voltou a ganhar um Campeonato Carioca. Parecia um sinal. Mas minha relação com o clube ainda era fria. Queria meu filho vascaíno, já minha esposa, flamenguista, pretendia o contrário, mas nunca teve chance, a começar por ele mesmo.

Quando o Vasco foi Campeão Brasileiro em 1974, um ano após o nascimento da Claudia, minha filha, dei uma bandeirinha do Vasco ao Sérgio. Já bebê ele recebera uma flâmula do clube, campeão de 1970. De uma hora para outra, entre 1976, 1977 o garoto se apaixonou de forma avassaladora por futebol e queria ir ver um jogo do Vasco.
Estive para levá-lo num Vasco x Botafogo, num dia em que a família toda, primos, tios foram ao Maracanã, mas ele ficou. Quando chegamos todos e ele soube do resultado (1 x 1), queria saber do primo Marco Aurélio detalhes do jogo, como fora o gol de Dé, parecia que não pararia nunca de falar ou perguntar.

Na semana seguinte o Vasco não jogaria no Maracanã. Era Fla-Flu. Como tínhamos duas cadeiras perpétuas no estádio – compradas por mim no ano do nascimento dele – deixei que o Juvenil, funcionário meu na época, esse que ele cumprimenta no programa das segundas-feiras, o levasse para o estádio.

Fiquei com um certo receio dessa ida dele ao jogo, afinal não era do Vasco. Ele chegou falando da cor das camisas dos goleiros (coloridas num mundo normalmente preto e branco para ele quando aparecia um jogo na TV), mas fui informado que se animara mesmo com cachorro quente, pipoca e matte leão em copo de papelão (só saía espuma naquilo!).

O Vasco entrou num período difícil e foi parar na repescagem do campeonato brasileiro da época, bem diferente desse de hoje, quando partidas contra Goiânias e Mixtos não eram sinal de fácil vitória. Estava em busca de um jogo sem risco, mas todos, naquela fase vivida pelo time, eram arriscados. Como aquele Fla-Flu de meses antes havia terminado empatado queria que a primeira vitória no estádio que ele visse fosse do Vasco.

Na casa de minha mãe, ouvindo o radinho de pilha disse a ele que se o Vasco passasse pelo Mixto em São Januário (jogo que classificaria o time para a fase seguinte, segundo ele me informou em consulta recente), eu o levaria ao Maracanã para ver o Vasco. Dito e feito. Na semana seguinte, um sábado à tarde (também segundo ele), estávamos lá. O adversário era o CRB, de Alagoas (disso eu me lembro) e o Vasco venceu por 1 x 0 com muita pipoca, matte no copinho de papelão e cachorro quente comprados antes do início do jogo, intervalo, saída.

Saímos felizes do estádio e ele animado com o Roberto, que fizera o gol único do jogo. Mas na chegada ao setor das cadeiras o fiz passar por uma prova de fogo. Dessas coisas que não tem explicação.

Ao descer para comprar o primeiro cachorro quente ou matte, encontramos com o Ademir Menezes, artilheiro do Expresso, que fazia comentários em uma rádio da época e estava próximo ao setor da imprensa. Falei: “Ademir! “, virei para o Sérgio e disse: “Esse aqui, meu filho, é o Ademir”, enquanto o Ademir abria um leve sorriso.
Meu filho me olhou meio espantado e aí eu voltei com mais ênfase, porém também com certo cuidado: “O Ademir, meu filho. Aquele do time que o papai fala com você”. Como é mesmo? “Barbosa, Augusto, Wilson…”. E o Sérgio emendou: “Barbosa, Augusto Wilson (parecia um nome só, Augusto Wilson), Eli, Danilo e Jorge, Friaça (não saiu assim mas algo parecido), Maneca, Ipojucan, Ademir e Chico”. O Ademir olhou, deu um novo sorriso e os olhos marejaram um pouco. Disse depois a ele apenas: “Tchau Ademir. Um abraço”. E fui comprar o cachorro quente com o Sérgio, realizado. Com uma sensação de dever cumprido.

Em 1977 foram vários jogos com ele, vimos o Vasco ganhar a Taça Guanabara com uma vitória sobre o Botafogo e comecei a resolver de forma simples um problema que ocorria a cada jogo ocorrido à noite. Ele acordava ansioso para me perguntar se o Vasco havia ganho e sentia tensão até que soubesse do resultado. Adotei então uma tática eficaz. Punha abaixo do quadro que ficava em cima da caminha dele o resultado do jogo e quem havia feito os gols. Junto a isso uma mensagem, sempre de otimismo, fosse qual fosse o resultado. Ele já me encontrava no café da manhã perguntando tudo sobre o jogo e queria porque queria que o levasse a São Januário.

Aí tomei uma das atitudes mais acertadas da minha vida. Comprei um título de sócio patrimonial do Vasco. Na época o Jorge Salgado, irmão do Pedro, companheiro de mercado de capitais, me sugeriu comprar também um camarote no estádio, que dava lugar a quatro pessoas. Não tive dúvidas. E já pus o restante da família como dependentes meus.
O primeiro jogo que vimos foi um Vasco e Remo (segundo ele me diz, porque disso não me lembrava mesmo). Outra vitória do Vasco por 1 x 0, gol de Paulinho (mérito para a memória dele). Passara um ano inteirinho e ele não havia visto o Vasco perder no estádio uma única vez.

A primeira decepção ocorreu depois do carnaval, em 1978. Com um público que eu jamais vi igual em São Januário perdemos para o Londrina, uma espécie de zebra da época, e fomos eliminados do Campeonato Brasileiro do ano anterior (é, do ano anterior). Ele é imenso hoje, mas na época deu pena vê-lo querendo assistir o jogo, com tanta gente na frente. Viu pouco, mas também não perdeu nada.

No mesmo ano, 1977, conheci, num desses jogos, o Sr. Rui Proença, que se sentava no Maracanã duas fileiras à nossa frente e era talvez o vascaíno mais entusiasmado do setor. Ao seu lado o saudoso Ferreira, que também não faltava a um jogo. A amizade foi sendo feita ao longo dos anos, havia uma coincidência de uma loja da Casa Cruz ter existido em frente ao local onde meu pai trabalhava e pela nossa diferença de idade havia uma possibilidade de os dois terem se encontrado por diversas vezes naquela região, perto do Parque Royale, que pegou fogo uma vez e deixou meu pai sem emprego (na época da guerra, se não me engano), para desespero da minha mãe e o consolo dele próprio a ela dizendo que não se abatesse porque havia sido feita a vontade de Deus. Mas isso é outra história. História de velho.

O Sérgio ria muito com as comemorações do Sr. Rui, que fazia coisas que lhe proporcionariam uma bronca se repetisse, como subir na cadeira após um gol, sair subindo e descendo a escada ao lado das cadeiras, abrir o guarda-chuva e rodá-lo (em dias de chuva, claro), entre outras que ele relembra até hoje.

Como sempre votei no Eurico e o Sr. Rui sabia disso, ele passou a me convidar para frequentar algumas reuniões organizadas pelo clube ou por grupos nos quais estava Eurico. O Sérgio se lembra de irmos juntos a várias a partir de 1988, ano no qual fomos bicampeões e ficamos na lateral do gramado esperando o jogo acabar, após o gol do Cocada.

Acostumado a ir aos jogos o Sérgio também se encantava com tais reuniões, afinal eram todos vascaínos e só se falava de Vasco. As pessoas mais velhas contavam passagens marcantes do clube, como o 7 x 0 de 1931, o Expresso da Vitória, a construção de São Januário, e numa daquelas vezes vi o Chico, melhor ponta-esquerda da história do Vasco, sentado numa das mesas. Não tive dúvida. Levei o Sérgio para lá e fui puxando uns assuntos de uns jogos dele do passado. Eu me recordo até hoje de um jogo contra o Corínthians, em que ele fez um gol faltando um minuto, que deu ao Vasco uma importante vitória na época (dia de bodas de prata do meu Tio Manuel com a minha tia Aurora, ocasião na qual demos uma escapulida e fomos juntos ao Maracanã).

Os olhos do Chico brilhavam com meu filho falando o que já tinha lido sobre aquele time (mérito meu de incentivá-lo também, é claro), do Campeonato Sul-Americano de 1948, da Copa de 1950, dos títulos invictos. À certa altura os dois não paravam mais de falar. Lembro até que o Eurico passou por perto e disse apontando para o Chico: ”Esse tem muita história pra contar”. E tinha mesmo. O Sérgio contava detalhes de jogos na conversa com o Chico naquele dia, que eu vi no estádio e nem me lembrava mais.

No dia da eleição de 1991, tive uma surpresa. Meu nome estava na chapa do Conselho Deliberativo. O Sr. Rui Proença havia me indicado e mais uma vez quem mais vibrou foi o Sérgio.

No primeiro mandato dei a sorte de ser Tricampeão Carioca como conselheiro do clube e assim fui seguindo nos outros anos, mas minha maior alegria foi quando surgiu o nome do Sérgio na chapa do Eurico (presidente) em 2000. Ele ficou entusiasmadíssimo. Já havia trabalhado na eleição de 1997, digladiando verbalmente com a turma do MUV durante todo o período pré-eleitoral, que naquele triênio, começou muito antes de 1997 e no dia da eleição fez questão de chegar no clube às oito e meia da manhã para ajudar, segundo disse (na época não morava conosco).

Ele ficou do lado de um senhor que depois descobriu ser o Álvaro, irmão do Eurico, fazendo boca de urna, e criou seu bordão contra a fala da oposição da época que argumentava ser a permanência de Calçada e Eurico um continuísmo inaceitável no Vasco. “Eurico e Calçada, Calçada e Eurico: continuísmo de vitórias”. Com a chapa azul na mão repetia aos que passavam até cansar, ou quem sabe cansá-los. Deve ter mudado o dia inteiro uma meia dúzia de votos, se muito, mas saiu todo feliz, após a apuração e a confirmação da vitória da chapa azul. Meses antes, comigo internado na Beneficência Portuguesa, após uma intervenção cirúrgica que sofri, falava como um suposto douto sobre o perigo que o Vasco corria caso a chapa azul perdesse. Caso Eurico saísse do Vasco.

Um ano antes Eurico me proporcionou uma grande alegria pessoal: o reconhecimento do título sul-americano de 1948. Sempre votei na chapa em que ele estava, desde 1980, vi brigar muito pelo Vasco, ajudar na conquista de títulos, mas jamais imaginaria que conseguiria aquilo. Ao lado do Sérgio, lendo a notícia do reconhecimento me emocionei e ele também. Como diz meu filho: “Se ele não tivesse feito absolutamente nada pelo Vasco, aquilo ali já seria muito”.

Em 2002 fui agraciado com um título de Benemérito. Havia sofrido uma fratura na rótula do joelho, a cirurgia não deu certo e permaneci de molho. No dia da entrega do diploma meu filho me representou. Fiquei extremamente feliz com isso, imaginando a cena.

Vimos muitos títulos, tivemos alegrias, tristezas, mas nada se compara em termos de decepção no clube, fora das quatro linhas, a aquele absurdo que foi a reunião do Conselho Deliberativo, na qual se pôs o despreparado Roberto Dinamite como presidente (imaginem!), presidente do Vasco.

Não pude votar porque ainda não era conselheiro nato, o Sérgio votou no nosso saudoso Amadeu, mas aquilo mais parecia um circo já armado. Vi a desolação do meu filho com a derrota e fiquei pacientemente ouvindo seus vaticínios, infelizmente confirmados com o tempo. De fato, era constrangedor imaginar um clube como o Vasco sendo conduzido por Roberto Dinamite, que foi um grande artilheiro, diga-se de passagem.

Mas dali por diante o Sérgio entrou para o grupo Casaca!, dileto grupo, e quando soube ele já escrevia texto, falava na Rádio Bandeirantes e parecia circunspecto e objetivo na missão de pôr o Eurico de volta no clube. Falava da sujeira que fora feita com ele, com razão, e tinha certeza de que ele voltaria, cedo ou tarde.

Fico com a sensação de que Eurico voltou tarde. Foi muito tempo de Dinamite no Vasco, de MUV, como o Sérgio diz, de muita tristeza com o clube abandonado e ainda uma reeleição do próprio Roberto Dinamite.

Mas, finalmente, em 2014 fomos todos votar no Eurico. O Sérgio botou como sócios a esposa, a tia, prima, irmã (a minha filha Claudia), a mãe (minha mulher) flamenguista, o nosso porteiro, alguns amigos, empolgado com o ressurgimento do nosso bom Eurico no Vasco novamente.

Passaram-se dois anos, o Sérgio permanece irrequieto e com o assunto Vasco permeando nossas conversas, meu neto nasceu e fiz questão de com meu filho irmos ao Maracanã (eu após 13 anos ausente) para vermos a decisão contra o Botafogo este ano. Acabou o jogo, abracei meu filho e gritei: “Meu neto é Bicampeão. Bicampeão invicto”. Eu que vi com 8 e 10 anos o Vasco ser campeão invicto, que fui com o meu filho no estádio de São Januário no dia do título invicto de 1992 contra o Flamengo, desta vez senti algo diferente. Era o primeiro título do meu neto, que meu filho pôs como sócio proprietário do Vasco no mesmo dia ou no dia seguinte que nasceu.

Quase no fim de 2016 me chegam duas notícias de uma só vez: a de que seria agraciado com o título de Grande Benemérito do Vasco era uma e agradeço pela lembrança e pelo carinho para comigo. Mas a Grande notícia mesmo foi a indicação de meu filho para Benemérito do Vasco. Ele que me fez voltar a frequentar estádios, a lembrar de minha infância neles, enquanto o levava aos jogos, que no café da manhã queria detalhes dos mais diversos do jogo disputado pelo Vasco na noite anterior, que viveu comigo tantos momentos felizes, que acreditou no que poucos acreditavam, que escreveu um livro falando de Vasco e de quem considera seu maior emblema vivo (no que concordo), que ouviu, acreditou e pesquisou sobre as histórias que eu lhe contava, para recontá-las a mim com mais detalhes ainda, e que, tenho certeza, pode ajudar mais e muito mais o Vasco.

No livro que escreveu (já está em tempo de acabar com tanta pesquisa e lançar o próximo), uma grande homenagem fez a mim e resume, realmente, o seu sentimento em relação ao clube. Diz mais ou menos assim: “Meu pai não me fez apenas ser Vasco, mas sim me fez ter orgulho de ser Vasco”.

Orgulho é o que sinto. Por meu filho.

Saudações Vascaínas a todos!

Casaca!

Raymundo Frias

OBS: Muitas das histórias meu filho as reavivou para mim. Se quiserem mais detalhes, aí é com ele mesmo.

Conheci Eurico Miranda em 1976. Quem o apresentou a mim foi o saudoso e grande Vascaíno Sr. Luiz Alijó de Lima, pai do nosso Vice-Presidente Fernando Lima. Naquela época, quando shoppings não existiam, ele era, juntamente com meu pai e outros portugueses, os grandes comerciantes de Copacabana.

Com a minha natural empolgação de Vascaíno fanático, então com 23 anos, me aproximei de Eurico Miranda para tentar levar o Vasco às grandes conquistas, títulos que marcariam sua História e fariam que todos deles se orgulhassem.

Lembro-me bem,estudava eu no Colégio Santo Inácio (então somente masculino) e me sentia o único Vascaíno entre os 2.000 alunos. Isso lá pelos idos de 1965.

Como nasci em 1953 e não me lembro de 1958, restou-me ver o Vasco campeão em 1970, eu já com 17 anos. Duro esperar 17 anos para ver seu time campeão.

Lembro-me também de só ver bandeiras do Vasco a partir de São Cristovão. Na Zona Sul, esquece, não se via.

Perdemos as eleições de 1976 e continuamos a batalha, até que em 1979, para o triênio 80/82 a União Vascaína ganhou e,finalmente, chegamos à direção do clube.

A partir daí, passei a observar e me aproximar do “novo Ciro Aranha”. Seu nome: Eurico Miranda. Acompanhei de perto o denodo com que Eurico perseguia as coisas do Vasco. Jogo de basquete: lá estava ele. Regatas: não faltava a nenhuma. Futebol de salão: lá estava o homem.

Em 1982, findo o mandato do Sr. Alberto Pires Ribeiro, Eurico resolveu lançar-se candidato enfrentando Calçada. Infelizmente, para o Vasco, perdemos.

Afastamos-nos do dia a dia, mas sempre acompanhando. Em 1985, novamente disputou a presidência e infelizmente perdemos novamente.

Aliás, o Vasco perdeu.

Vindo de uma administração lamentável, não restava ao presidente Calçada outra coisa que não fosse convidar Eurico Miranda para ser o seu V.P. de futebol.

Paremos por aqui ou sigamos?

Se for para seguirmos, surge a partir daí um Vasco respeitado, impondo suas idéias, sempre presente e com peso nas decisões mais importantes do desporto brasileiro, fosse no futebol, basquete, futsal, remo,etc,etc……

Quando Eurico Miranda assumiu a presidência em 2001, dessa diretoria fiz parte como V.P. de futebol. Pude acompanhar como esse homem, esse trator para trabalhar, conseguia, bem ou mal, quase sempre bem, tocar um clube da grandeza do Vasco que, na época, tinha quase que somente o suficiente para pagar as suas despesas, e olhe lá!!!!

Vocês pensam que ele se escondeu? Nada! Lá estava ele todos os dias, TODOS, enfrentando todo e qualquer problema ou desafio.

Juntos, subíamos na marquise da social para ver como andavam as obras de impermeabilização. O homem discutia até o tipo de piso a ser colocado nos vestiários, azulejos dos banheiros, etc….ao contrário do que se tenta espalhar, não atribuo tais atitudes a um temperamento centralizador, mas ao zelo e respeito pelo clube.

Acompanhei o apoio firme que esse VASCAINASSO dava ao jurídico, futebol, basquete…ao Vasco!

Mas, quis o destino que Eurico Miranda deixasse a presidência do Vasco entre 2008/2014. Triste período. O Vasco transformou-se num clube sem força, sem voz, com seu patrimônio imundo (vide piscinas, ginásio, dormitório e refeitório dos jovens jogadores), perdendo no remo, não disputando basquete e caindo 2 (duas) vezes, vou repetir, 2 (duas) para a 2a. divisão.

Como a verdade iria prevalecer, eis que Eurico Miranda reassume no final de 2014 a presidência do Vasco. Aquela cadeira presidencial, que um dia foi de Ciro Aranha, voltava para Eurico Miranda.

Escrevo isto por um sentimento puro de justiça com ele. Não faço mais parte da diretoria, colaboro se estiver ao meu alcance, mas, o que procuro no que aqui escrevo é justiça.

Eurico Miranda encontrou um clube abandonado, fatiado em capitanias hereditárias, sem ginásio, sem parque aquático, com o remo em terceiro lugar e, com sua capacidade de aglutinar (ao seu modo) e seu conhecimento profundo de Vasco e das coisas do Vasco, reergueu o nosso clube em 4/5 meses.

Vascaínos, somos campeões cariocas, o famoso Cariocão, tão difamado, mas que colocou 67.000 pessoas no Maracanã, sendo, no mínimo, 50.000 Vascaínos.

Eurico Miranda montou uma equipe, trazendo de volta seus parceiros que conhecem e bem o Vasco, José Luiz Moreira, Paulo Reis, Fernando Lima, Antônio Lopes Caetano, Quim,Marcos Carvalho, Marco Antônio Monteiro, Mourão, aliados a um grupo jovem, de novos valores, atuando nas mais diversas áreas, mesclando com isso experiência com renovação, equipe essa que qualquer adversário respeita e muito.

Amigos, tenham certeza, aquele lixão que se encontrava no Vasco vai e já está sendo totalmente limpo e passaremos a ver novamente no nosso Vasco crianças, jovens e adultos praticando as mais diversas modalidades esportivas. O nosso clube voltará a ter VIDA!!!!

Sempre houve contra o Vasco tentativas de diminuí-lo e achincalhá-lo. Com Eurico Miranda, esquece. Isso será perda de tempo.

Creiam. Ressurge o verdadeiro Vasco. O Vasco não subserviente, o Vasco que fala mais alto!!!!
Esse nosso Vasco, que enfrentou os poderosos, introduziu o negro no futebol, construiu São Januário com recursos dos seus associados e abnegados voltou. E o melhor: voltou para ficar de vez!!!!

Tenhamos paciência, saibamos esperar pelo melhor, acreditemos em Eurico Miranda e sua equipe, pois um homem que em 4/5 meses, após encontrar um Vasco arruinado, se torna Campeão Carioca é, no mínimo, para não dizer o máximo, o maior dirigente esportivo do Brasil.

Apesar desse texto longo, pouco escrevi sobre o que sei do homem Eurico Miranda. Fica aqui minha homenagem a essa figura que, enquanto Presidente do Vasco, me dará sempre a certeza de que o nosso Club de Regatas Vasco da Gama, sob o seu comando, é e será sempre imortal.

Paulo Pereira / Grande Benemérito

CASACA! NO RÁDIO

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Ouça a íntegra do programa CASACA! no Rádio de 04/12/2017 com participação de Sérgio Frias, Rodrigo Alonso e Iury Gaspar.