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O Crime Perfeito?

 

Centenas de refeições diárias distribuídas. Escola de primeiro e segundo graus para centenas de atletas. Alojamento para desportistas que residem longe. Atendimento às comunidades do entorno através destes programas. Maior projeto voltado para atletas especiais dentre os clubes brasileiros. Algumas de tantas outras ações de caráter social. Não. Nada disso jamais gerou motivação suficiente num só órgão de imprensa para a produção de matérias de capa. Afinal, o Vasco, distintamente sob esta administração, é um clube de bandidos, sob o comando de Gru, o malvado favorito.

Opta-se, então, por noticiar com espetacularização desmedida atos de violência e vandalismo fomentados por quem tem interesse em sabotar o Vasco. Com distorção dos fatos também desmedida. Com sede pela criminalização sem apuração necessária.

Ocorre que há meses as redes sociais indicavam haver uma bomba armada para explodir. Não foi por falta de denúncia que os investigativos não agiram. Mas preferiram negligenciar. Talvez porque se as ameaças eram contra Gru, que Gru se vire.

Quem esteve no jogo de sábado e frequenta atentamente o Vasco há décadas conhece de quem partiu a guerra e com quais intenções. A dúvida, agora, é saber se, por conveniência, a Polícia Militar embarcou no estopim, pois desconfia-se que a corporação discorda de clássicos em São Januário. A ação de resposta desastrada indica que sim. Mas convenhamos que resposta desastrada tem sido algo comum a qualquer órgão vinculado a este governo do Estado do Rio de Janeiro, hoje sob comando (?) do sucessor do bandido de Benfica.

O outro embarque, este que não gera dúvida alguma, foi realizado por adversários e imprensa, que no fundo são uma coisa só, uma vez que a imprensa atende aos interesses dos adversários dia sim, outro também. E eles, os adversários, não querem jogar em São Januário. O problema nem é a cobertura, visto que o sensacionalismo tem sido regra para manter vivo algo em franca decomposição, especialmente no Brasil. As questões são o julgamento prévio sem apuração, a covardia franca, o desrespeito com a História de São Januário, os desvios dos argumentos toscos e o rancor visceral de expoentes da vigarice com voz nos rádios, TVs e jornais.

Perde-se, assim, em palavras vagas e repletas de pré-conceitos, a oportunidade de que sejam apuradas as reais causas do ocorrido. Aquele não foi mais um episódio de violência. Aquele não foi mais um episódio de interferência trôpega da polícia militar. Aquele foi um episódio absolutamente preparado. E quem o preparou sabia das reações em cadeia porque conhece o ódio que São Januário desperta, seja pelo profundo ranço histórico, uma vez que é símbolo de uma luta contra o preconceito até hoje aderido aos corações da elite (inclusive intelectual) carioca, seja pelas provocações que o estádio permite nos tempos atuais contra torcedores adversários, que não dispõem de local para jogar mesmo depois das portas que o bandido de Benfica deixou abertas a distintas empreiteiras, como a Odebrecht, ou a empresários ilibados, como o parceiro do Flamengo, Eike Batista.

Assim, sob o desejo de condenar Gru e seus comparsas, atira-se a esmo, sem que nem mesmo se faça uma reflexão rasteira a respeito dos interesses de inviabilizar São Januário. E daí, se o importante são aquelas portas fechadas, se o desejo é que Gru responda à Justiça novamente, após pisotear sobre cada acusação que lhe foi imputada no passado e sair do massacre do início dos anos 2000 ileso, se o tesão é poder imaginar o Vasco na segunda divisão ao final do ano, o que desmentiria a franca recuperação pela qual o clube está passando? A hora é agora.

Bombas no gramado lançadas sob incentivo dos teoricamente de dentro, reação descabida de uma polícia que odeia trabalhar em São Januário, odeia o governo que não lhe paga e se odeia, e motivos de festa entre adversários, imprensa e servidores públicos em busca de holofotes, que vão aderir a culpa em quem não tem apenas porque é mais fácil e mais divertido fazer discurso moralista barato tendo como pano de fundo uma imagem surrada pela defesa intransigente de um clube que deveria estar proibido de ser o que é há 119 anos. O crime perfeito.

Desportivamente, infelizmente, a torcida do Vasco deve sofrer punições. Mas é injusto que São Januário seja punido. O estádio possui todos os pré-requisitos legais para abrigar jogos e só será fechado se o ódio contra a sua existência prevalecer.  Punir São Januário fechando-o e permitir torcida em outra praça é distorcer. É beneficiar o infrator. Se o infrator foi gente infiltrada na torcida, é contraditório permitir sua presença durante a punição. Quem sabe as exceções sejam, como bem disse o lateral esquerdo Ramon, mulheres, crianças e talvez, complementando, sócios, uma vez que nada houve na Social, mesmo sem barreira de proteção para o campo de jogo.

Quanto às questões criminais, que apurarão as responsabilidades, espera-se isenção da Justiça. Espera-se, novamente, que o estádio saia ileso, sob pena de confirmação de um julgamento com viés de ranço contra o que representa a Instituição Vasco da Gama. O mínimo de investigação desmanchará a tese boquirrota da mídia e os desvios retóricos cometidos pelo representante do Ministério Público. Tanto a tese quanto os desvios fazem questão de misturar alhos com bugalhos, a fim de criar um emaranhado no qual os fatos do dia 8 possam ser confundidos com episódios de violência comum. Não podem em função da premeditação política que, por incrível que pareça, imprensa e Ministério Público retro-alimentam. O que acaba por torná-los também responsáveis e coniventes com aquelas cenas lamentáveis, mantidas as posturas atuais.  

João Carlos Nóbrega de Almeida